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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Somos uma partícula da vida dessa cidade

Foi numa dessas manhãs em que a projeção da luz
de nossos feitos adentrou o espaço - tempo de nossos afetos,
em meio às crianças a ler, escrever, cantar e contar vagalumes,
num desses pontinhos de cidade, percebi o aprendizado colaborativo
que vivenciamos com tanta gente e o quanto avançamos.

Caminhamos pelas interações para um bem viver juntos,
sempre a contar com sementes aladas para germinar
coautorias de crianças, jovens e adultos a intervir
nesses territórios dentro e fora da gente.

Nessa ciranda de 10 anos
a reunir a passarada,
nos frutos – livros
das árvores
e praças,
na roda da escola
a cantar, plantar,
comunicar, educar
em Ágoras de paz,  
Odeons, Casas,
Templos, CEUS,

no brotar sorriso – flor
de um Galpão iluminado
pelos olhos incandescentes
de crianças e educadores,
nos desafios constantes
superados com habilidade
e com “toque de letras”,
em meio às ocupações,
os rios, os córregos,
as moradias,
os desatinos,

nos encontros caipiras,
urbanos, dessas vilas, vidas,
quantas vidas na vida da cidade,
uma certeza iluminou o caminho:
a de que somos uma partícula da vida dessa cidade a captar,
capturar a sabedoria desses citadinos, o amor e a vontade comunitária,
com disposição, altruísmo, competência, e solidariedade, pensando em todos,
melhorar esse lugar onde se vive, onde também vivemos a trabalhar,
e educar e ser educado pela vida desse lugar na conexão com a cidade.

Feliz Natal e um 2015 de realizações, aprendizados e amor.
Sempre a pensar e fazer junto.







domingo, 9 de fevereiro de 2014


Encantos e amor para reencantar o mundo


Certa vez um menino sonhou de verdade que rompera mata a dentro e se apaixonou por uma pedra. Esmeralda brilhava ao lado da cachoeira e a sombra de água e luz desenhava formas meninas, contornos brilhantes, fascinantes que afetuosamente o impediam de voltar. Uma magia que o fazia esquecer o caminho de volta, enlaguescendo o tempo.
            O menino, encantado por tanta beleza da menina – pedra passou dias e noites a contemplar, contemplar, contemplar... Tantas águas da terra e do céu, tantas folhas esvoaçavam... E assim passaram os dias de encantamento do menino por Esmeralda.
            À medida que as estações iam e vinham o menino diminuíra, até se transformar numa pedra, uma pedrinha tanta pequenina, uma luz que se moveu e se fundiu à pedra menina...
Desse encontro se fez um abraço de um diamante com uma esmeralda, um campo de afeto se fez e de luz que acolhe os que buscam o encanto, os apaixonados e irradiam encantamento a todos que precisam de luz, água, minérios e cristais para que o amor se integre à vida e à verdade.

Quiçá um dia poderemos, espiar esse encontro, ou até mesmo viver essa história para que possamos reconectar a criança ao universo voltado ao reencantamento do mundo.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Cosme e Damião ficaram tristes

Cosme e Damião, nossa única proteção dizia a música, o rap que ouvira tempos atrás nessa cidade rebelde. Vejo crianças correrem entre os vãos dos barracos, tantas brincadeiras que se projetam da dinâmica das relações adversas em que vivem, na qual a agressividade, muitas vezes, ultrapassa nosso sentido, percepção, entendimento e significado, bem como nossos conceitos saturados de educação que deveriam se configurar a partir de uma forma de concordância com o ser no mundo em sua realidade múltipla, mas insistimos no pressuposto do progresso explicando a imperfeição com os aprisionamentos conceituais que não estancam as feridas, nem cicatrizam as dores, tão pouco quebram as condições de desigualdades e iniqüidades.   
Enfim, são tantas boas intenções que não evitam os ferimentos individuais e comunitários, limitando cotidianamente nossa exposição no mundo. Além de tudo isso, não há o devido reconhecimento da importância dos seres que vivem numa ciranda de mãos dadas com o par experiência - sentido no processo de educar na cidade e do direito de mudá-la inerente inclusive à nossa condição humana.  
Não podemos educar e ser educados como numa organização puramente racional de estar junto, ou, ainda, de mero utilitarismo próprio da economia moderna. Isso elimina os afetos, os humores, os sentimentos, o onírico, muitas vezes considerados pelos conceitualistas e “conceituadores” como viagem dos inúmeros, porém institucionalmente invisíveis colaboradores seres, com os quais felizmente nos relacionamos e que contribuem para a construção de uma inteligência coletiva e de um conhecimento colaborativo, num diálogo orgânico com o cerne da solidariedade ecológica que emerge da contemporaneidade, em função da necessidade de pensarmos uma sociedade totalmente diferente desta que ai está.
Pensar num modo de estar, viver e se relacionar que considere a necessidade de incorporarmos às nossas relações a partilha do sensível, composta da soma de nossos sonhos e experiências.
Num desses dias, na minha cidade, Cosme e Damião choraram ao saber das pedras atiradas na mulher que habitava um vão dessa territorialidade de nossas bordas desbotadas de políticas de bem viver. Choramos também na reprodução desse simbólico, sentimo-nos de certa forma machucados e nos propusemos a repensar também, mais uma vez, nossa forma de atuar em que ainda prevalece uma ideia de desenvolvimentismo, quanto na verdade, vivemos um momento de envolvimentismo, numa partilha da beleza e das emoções, o que também, creiam doutores do conhecimento antropocentrista e institucionalizado, contribui sobremaneira para o processo de aprender e ensinar.
Nossas lágrimas, diante das pedras atiradas, surgiram, secaram e molharam nossas metodologias, e assim sucessivamente, o que nos fez, mais uma vez repensar tudo isso que nos propomos a fazer, repensar a cidade, considerar ainda mais, em meio à tristeza de que sempre devemos estar dispostos à aceitação da inocência do devir, como também inovar nas histórias que vivemos com tantas crianças, adolescentes, jovens, famílias...
Insistem os apressados editores, acadêmicos, doutores e ogros da educação de não ter escuta para o não sábio, para o não intelectual. É que dentro da hierarquia valorativa do conhecimento, estabelecida por valores ultrapassados de nossa sociedade, esses apressados e mantenedores de um modelo de viver junto saturado insistem em ter explicação para tudo, inibindo as descobertas e atropelando o emergir dos saberes advindo da experiência vivida.

Mas a tristeza insiste nesse 27 de setembro. Pelos moradores de rua, por tudo isso que se tornou essa cidade, por nossas atitudes e as crianças das bordas da minha e de tantas outras cidades do mundo, que talvez tenham como única proteção, São Cosme e São Damião. Olhai os lírios do campo !!!


sexta-feira, 12 de abril de 2013


Diálogo de dois jovens no trem e o observador é flagrado.
A moça empregada doméstica e o moço segurança da boate

- Nossa, é você mesma, aquela menina pequenina, filha do Tijolo, irmã do Guma. Você, naquele barraco brincava com todo mundo nos dias em que a gente jogava “Pife” –surpreso com o encontro, observou Edelson.
- Sou eu, isso mesmo, a Evelyn, antes a menina, agora mulher crescida, na luta como empregada doméstica – salientou com ares de atestado de emprego, misturado com percepção do interesse de Edelson pelo seu corpo, pernas esticadas sobre o banco do trem. 
- E o Guma? Como anda teu irmão?
- Tá desandado, entra e sai da Fundação Casa, se juntou com o “Mi” nesses esquemas de assalto, mas como é “de menor” vai e volta, “L.A.”... Enquanto isso o “Mi” tá de boa tem a proteção dos “primo”, assim diz ele. Mas você tá engomado, tá trabalhando onde?
- Sou segurança de boate de uns bacanas, maior esquema, “os cliente” dá hora, “gorja das grossas”, só mulherada bonita, assim como você, só “mulherão”. Fico de olho para assegurar a festinha que rola, vige o pessoal faz de tudo... – pronuncia Edelson com imponência.
- Você deve ganhar bem?
- Ah, tipo uns dois contos, mas como sou sócio da biqueira do Jair, lembra dele? ... Então, levo mercadoria pros bacanas e daí minha renda chega a “quatro conto”, dá ate para pensar em casar com moça bonita como você.
- Casar, vige!! Estou bem, assim, solteira, dando um trampo. E de onde tem droga quero distância. Além do trauma de ver meu pai na cadeia até hoje, mais minha prima que se viciou quando casou com o Tomate e agora teve criança que o Conselho Tutelar já tirou dela. Eh rapaz, e esses olhos grandes para o meu corpo... – finaliza Evelyn com ares de reprovação. 
- Eh Evelyn, não tô de olho não. É o chacoalho do trem que dá essa excitação, mais as lembranças lá da casa noturna. Eh, vai, vai, você é bem bonita. Ué, não pode olhar? Vai dizer que você não gosta de namorar? – provoca Edelson.    
Olhar, até pode, Edelson, mas atualmente meu corpo é do Senhor Jesus Cristo que me salvou, pois a minha família, depois de tanta desgraça, sem casa foi morar num outro barraco e o fogo levou. Hoje dei a volta e não quero regressar ao poço que o Nosso Senhor me tirou – protege-se Evelyn, religiosamente.
- Em relação à religião respeito a escolha e, para mulher, acho até bom. Penso até em casar, to procurando alguém, mas sempre quando acho que encontrei, abro o coração como agora – investe amorosamente Edelson.
- Bem, tenho que descer aqui em São Miguel. E o senhor está olhando para gente, anotou tudo ai, no seu caderninho? – percebe Evelyn, meu monitoramento.
- Achei a conversa interessante – respondo meio sem jeito – dirigindo – me à porta do trem que se abre. Edelson grita de lá dentro, o senhor é escritor ou é polícia? Sou educador, respondo acanhado e ganho um folhetinho da igreja de Evelyn.
Edelson fica a espreitar na janela. Digo a Evelyn que gostaria de passar a limpo o que escrevera. Ela me diz que quem realmente decide é Nosso Senhor. Caminho, passo largo, Praça do Forró, atravesso a passarela. Evelyn me disse a pouco que trabalha na Vila dos Americanos, numa casa de família, perto do restaurante Piassi. 

sábado, 10 de novembro de 2012


Fotografia: Allan Werigues (12 anos - morador do Jd Lapenna) 

Prezada e manifesta literatura,

Aqui quem lhe escreve é um livro que em meio a tantos textos, falas, cantos e ritos
pode observar e interagir com as praças, calçadas, escolas, rios, ruas, árvores, gentes, pássaros que se encheram de vida e animicamente animaram pontos de um território – autor escritor,  
autor este que escreveu com gestos, danças, poesias, cantos, encontros e cordas de uma lira,
lida de literalizar a cidade, sobre a existência da arte, esta muitas vezes adormecida
e obnubilada por um enredo urbano teimosamente  injusto e desigual,
o qual desconsidera a poesia, os saberes e as narrativas nascidos
em meio ao processo de superação de tantas adversidades
nos cantos da cidade tão visíveis,
mas que se tornam invisíveis,
apesar de tanta história   
para contar e ensinar.

Senhora literatura, a senhora ficará feliz em saber
que por essas vias e redes dessas bandas
largamente expressivas e sensíveis
na Zona Leste de uma cidade,
as flores não estiveram
nos shoppings centeres,
e sim no espaço
e cyberespeaço
público.


A senhora, dona Literatura, deve ter sentido  
que as crianças, jovens e adultos invadiram o ambiente,
ruas, vilas e vielas e, os que eram vistos até então como coadjuvantes,
tornaram-se atores principais a revelar suas potencialidades, práticas de letramento   
e sensibilidades, compondo uma arquitetura – poética, a arquitetura do diálogo, do verso,
da prosa, numa inteligência conectiva e literária, feito uma obra de arte – cultura a significar            
coautorias que descentralizaram o saber, apesar do esforço inconsciente, a senhora bem sabe,
de alguns poucos, queremos crer, em alimentar a hierarquização do saber e do sentir,
porém, Senhora Literatura, esses foram vencidos por aqueles que sentem o saber
e sabem que o sentir nasce de um entrelaçamento de sonhos numa geografia
da alma literária, numa utopia possível, a conectar educadores, educandos
a trocar lições, afeições, lítero - encantos preenchendo melodias  
e noites a irradiar uma pedagogia da esperança, comunidade,
jovem, criança, pássaros, plantas, rios, oceanos de afetos.

Isso tudo, querida senhora Literatura, num pedaço de mundo,
numa comunidade de sentidos, localizada e vivificada
por um simbólico composto, aqui cabe poesia,
de uma praça do Forró, arcanjo Miguel,
guainases, nordestinos, paulistas,
paulistanos, minas, manos,
Galpão, todos arcanos
e sabedores de que a literatura,
assim como “a poesia é de quem precisa dela”.       

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Poeticamente o habitar é comunicar. 
Reflexão sobre nossa contribuição nessa lida de educar e ser educado para melhor viver junto.

sábado, 28 de abril de 2012

José Aparecido, pedreiro, de profissão, morador do Jd. Lapenna - São Miguel Paulista - SP - Brasil fala de seus tempos de escola, aponta as tecnologias e a internet como importantes na educação de hoje e com orgulho afirma que disse a um engenheiro quanto em média pesa um prédio. 


“A cidade com seus pontos de referência afetivos, conjuntos de signos, mitos, ritos, relações associativas; nossa verdadeira tarefa não é criar uma cidade, mas formar um conjunto de pessoas que tenham o sentimento de cidade. E a esse sentimento confuso e fragmentado em milhões dar uma forma em que cada qual possa reconhecer a si mesmo e à sua experiência de vida associada”.
Giulio Carlo Argan 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Dona Ana Maria lembra de seus momentos de escola debaixo do pé de Juá. 

“A cidade com seus pontos de referência afetivos, conjuntos de signos, mitos, ritos, relações associativas; nossa verdadeira tarefa não é criar uma cidade, mas formar um conjunto de pessoas que tenham o sentimento de cidade. E a esse sentimento confuso e fragmentado em milhões dar uma forma em que cada qual possa reconhecer a si mesmo e à sua experiência de vida associada”.
Giulio Carlo Argan 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Crônica Atópica
                                                                                                             José Luiz Adeve (Cometa)

Viver entre a garoa que exige a blusa
e o céu azul ensolarado que nos aquece.
Percorrer os caminhos da urbe pelos trilhos,
ruas, vilas, vielas, seja em Istambul ou em São Paulo.
Avistar o helicóptero que navega entre as últimas nuvens
prateadas do frio outonal de ontem,
viver entre os invisíveis e desconsiderar a notoriedade, 
mas estar dentro das histórias, das trajetórias ou ter a sensação disso.

Entrelaçar narrativas gestuais,
os olhos cerrados do senhor sentado
em repouso no trem, entre destinos.
As mãos do operário sobre o capacete
utilizado na obra da nova estação
e o relógio de um outro senhor
a marcar o tempo de nossas sombras,
que passam a ser autônomas
diante dos segurnças ferroviários agitados
pela suspeita de comércio de guloseimas.

Na composição que se torna atópica
em sentidos que se deslocam para além do trem
e com um celular a pós - poesia,
crônica dessa megaleletrônica cidade
interage e itnerativamente
pode ser ouvida, lida, vista
e, intermidiaticamente interferida,
acrescida, parceirizada em tantos outros não - lugares,
com suas respectvas mídias locativas,
com a musicalização das cenas,
os pontos geográficos, as feições,
exrpessões de seres humanos,
também de inanimados animados
pela tecno - metassensibilidade,
com ou sem estratégias de ocultar ou mostrar,
os instrumentos comunicacionais que se tornam interativos,
na constatação de que se está dentro e fora do trem,
dentro e fora da gente, numa quase psicastenia
com o lápis e mão - unos - um só,
janela - ombro - vidro
sem distinção do que é animado
e do que é inanimado,
a ponto de tropeçar,
enquanto colhe com olhos híbridos
de câmera  - humana, tecno - humano,
o papel de bala,
o chiclete grudado,
a formiga cortadeira,
passgeira deslocada no espaço geográfico
por uma sacola com verduras,
verduras vinda da horta da Mâe Preta da Vila Curuçá,
que no facebook
está ao fundo da imagem
que tem a Dona Ana em sua quitanda,
onde outros micro - organismos
podem ser focados, ou em desfoques consentidos,
a compor um serpentear imágico - espacial,
do quadro que se mistura projetado na parede de rua,
na cortina da sala de aula,
na tela - teia, tida e havida
do tablet, tablete de chocolate
que o camelô vende agora,
no trem quase vazio com a sinalização
do display do vagão, 
a marcar a hora de 25 de abril de 2012,
mas também nesse caderno
escrito com lápis - mão,
uma mão - lápis,
em tantas outras dimensões,
num perpassar pelas multidimensionalidades.

Acomodadas em seus bancos  
pessoas cochilam nos assentos coloridos,  
com designe fractualizado que remete
em parceria com os raios de sol
a fechar os olhos
e se reconfortar em halos,
quando o sol incide 
sobre os olhos cerrados,
fazendo com que se abram
e permitam a entrada de luz e calor
pelo chacara mental, assim vejo o enunciado
da revista sobre um Gurú,
a propiciar equilíbrio tão pretendido
por este meta - narrador,
nessa manhã de outono
e de sensações atópicas
a partir desse deslocamento pela cidade.  

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012



Nem a cidade dos homens, nem a cidade de Deus. Se Santo Ambrosio nos visitasse diria: “semiduraturum urbium cadavera”

por Luiz Alfredo Tchacatcho


Desde pequeno brincava na Alameda Cleveland, a rua que tem na esquina o casario onde morou Santos Dumont. Na época, lá pelos idos de 1970, a instituição Pestalozzi ocupava aquele espaço onde hoje está instalado nesse imóvel o Museu da Energia, guardador das memórias da Light.

No final da rua havia uma passagem que dava para o trilho do trem e margeando a malha ferroviária, debaixo e nos arredores, o viaduto que até hoje liga as avenidas Rio Branco e Rudge, tínhamos a grande fábrica, orgulho dos moradores mais antigos do Bom Retiro e da Barra Funda.

Pois bem o tempo passou, a Moinho Santista não existe mais, São Paulo não parou para pensar, nos últimos 40 anos, nem um pouco, com profundidade, um plano diretor que dialogasse com o que se verificava de anomalias e desequilíbrios, sendo que a ocupação do solo, a habitação sempre foi uma de nossos grandes problemas, principalmente pelo fato, de que um grande contingente de pessoas, teve que a principio se aproximar dos bairros centrais, ou dos bairros de classe média – alta, para conseguir trabalhar, já que vivenciamos um processo de desindustrialização intenso e abrupto.

Depois disso, a população que não conseguia seu espaço dentro das áreas “recomendadas” para viver na urbe com a devida infra-estrutura foi, digamos assim, empurrada para as localidades as quais denominamos periferia, iniciando um processo de favelização, que também atinge o centro da cidade, como bem observara o geógrafo Milton Santos, projetando uma extensão de ocupação irregular, com perspectivas de percorrer as vias que unem São Paulo ao Vale do Paraíba e Rio de Janeiro, isso na Zona Leste, sendo que a Zona Norte, agora também com o Rodoanel entrecortando a Serra da Cantareira também já evidencia novos desequilíbrios e vulnerabilidades.

Não temos nada contra o Rodoanel, mas no que diz respeito à condução de um processo relativizado ambientalmente realmente deixou a desejar, sendo que seu traçado invade áreas de mananciais e, a possibilidade de ocupação, aliás, como já ocorrera antes mesmo de sua construção e finalização, foi acentuada e não foi pensada, aliás, coisificamos nosso planejamento urbano há muito tempo.
Mais uma vez fazemos grandes obras, sem um devido pensar na totalidade, nos seus reais impactos no lugar, o que continua a demonstrar que somos uma cidade de improvisos de uma ordem vultuosamente insustentável, e se Santo Agostinho nos visitasse diria: “semiduraturum urbium cadavera” (a cidade se assemelha a um cadáver).

Sim, vivemos também um quiasma habitacional nas zonas sul e oeste da capital e, para variar, as desapropriações do passado e as atuais não são planejadas, como as verificadas nesse momento na região de Itaquera, como recentemente afirmou Raquel Rolnik – relatora especial da ONU para o direito à moradia – “a máquina de produção de favelas está em operação”.
Só em Itaquera são 70 mil famílias afetadas pelas obras da Copa que desconsidera direitos, sem deixar alternativa para os despejados, enquanto que a valorização dos imóveis próximos à grande arena do espetáculo da copa e em grande parte de Itaquera prenuncia grandes negócios imobiliários. Ah, minha São Paulo, tão rica e tão pobre! Perguntamos: Copa pra quem e pra quê? Sendo que a conta será paga, mais uma vez, pelos mais pobres.

Sim, a vida é um moinho, como diz o poeta em outro contexto. No caso do moinho da habitação, nossa cidade que conta a cada dia com novas famílias vivendo em aglomerados e em regiões inóspitas, revela um outro moinho, aquele que desintegra, sem políticas habitacionais, mói –se e varre para debaixo do tapete qualquer perspectiva de melhora dessa anomalia. O que se verifica são recompensas desestruturadas e imediatamente definidas pela ordem executiva em arranjos emergenciais e frágeis.

E, só para lembrar, alteram-se leis municipais tão rapidamente para beneficiar empreendimentos imobiliários, porém a mesma velocidade e vontade política não existem, nem para pensar, quanto mais para aprovar políticas de habitação consistentes, que dialoguem com educação, saúde, infraestrutura urbana que beneficiariam a quem sempre paga a conta: os mais pobres.
Governas-se e legisla-se para uma parte da cidade, e a outra parte não cabe nessa barafunda de nossa unidade administrativa.

domingo, 18 de dezembro de 2011





Gratidão.

Sim fomos educados.

Nessas últimas quatro estações

aprendemos a pensar mais

nas "percorridas" pelas vielas,

becos, casas, cantos, ruas, escolas

a tecer histórias e narrativas,

numa cultura afirmativa

composta de falar, ler e escrever.



Sim.

Contribuímos para o pensar uma rede

que estimule crianças, jovens, adultos,

educadores e educandos a ver a sociedade

como um todo sem vencedor e nem perdedor,

por uma desfragmentação do ensino,

o que não deixou de ser uma bandeira,

ao longo de nossa lida,

mas a real prática de religar saberes,

sem impor princípios.



Gratidão.

Pelas pessoas, mães, que navegam

nos computadores de nossa casa - Galpão

com o objetivo de "letrar" a vida

para bem acompanhar seus filhos,

e contribuir para a superação dos desafios

e das adversidades de um viver

num território tão frágil e tão desigual.



Sim.

Sempre presente o embrião

a idéia daqueles jovens

que puderam descobrir conceitos,

e não somente assimilar os pré - existentes

e, numa trama bio - afeitva

invadir as escolas, outras vilas e jardins,

revelando e elaborando afetos

e desejos de bem viver junto,

ações que a arte permite,

num diálogo com o lugar

no qual se vive projetando

as reflexões juvenis em mensagens,

narratividades, enredos e atitudes solidárias

e comunitárias com a certeza

de que um outro mundo é possível.



Gratidão.

Pelas crianças que desenharam histórias,

num letramento de múltiplos sentidos,

a multiplicar no espectro da subjetividade

tantos pontos, centelhas de leitura,

entrelaçando-se com a memória dos adultos

e de seus tempos de escola ou não escola,

ou quem sabe da escola que virá.



Sim.

Nos lugares, espaços de conviver,

a abordagem foi conduzida por meio

da língua dos homens e das mulheres,

não com a língua dos sábios,

o que permitiu que tanto aprendizes e mestres

fossem autênticos e invertessem os papéis,

invertessem com as cordas da viola e da rabeca

essa lógica de estudar somente em relação

à utilidade do produto para transformá-lo em lucro,

mas muito mais com a certeza que a vida

de nossas liras criadas e recriadas

têm tantos outros significados.



Gratidão.
Pelos temperos e saberes dessa gente

na cozinha de nossa diversidade cultural

e nas rodas para troca de saberes,

mulheres guerreiras visualizaram horizontes reais,

em meio à essa concretude perversa de vulnerabilidades sociais.



Sim.

Gratidão pelas árvores - livro

que literalizaram Ururai,

São Miguel Paulista,

aldeia de vilas e gentes

que se transformam em arcanjos,

nessa cidade em que nossos deuses,

como diz Ítalo Calvino por meio de Marcopolo,

estão dentro dos baldes,

enchentes d'água Tiê, Tié, Tietê,

mas salve a cheia de livros e leitores,

nascida no desejo que se sustenta

com a multiplicação de leituras,

nessa urbe tão grande e tão desigual.



Gratidão .

Pela manifestação dos jovens e dos adultos,

num movimento de percepção de que habitar

é mais que residir, estar, é relacionar-se.

Podemos sim, não só sonhar,

mas ter a perspectiva de uma sociedade de emancipados,

com uma gente empoderada que ilumine a doce inclinação do coração,

que nos leva à ajuda e ao amor reciprocos.



Salve os mestres dessa hora,

Salve os mestres que partiram,

Tantos aprendizados

a tornar perceptível

a afirmação de Rubem Alves:

a educação é amor

e isso nos redime.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011


A sabedoria de Dona Antonia sobre os jovens e a vida

“O ser humano sabe que há outros seres que a ele se assemelham e aos quais poderá comunicar os sentimentos que experimenta, desde que os situe nas circunstâncias às quais deve suas penas e seus prazeres. Assim que ele conhece o que o comoveu, ele pode se exercitar e comover os outros, se estuda a escolha e o emprego dos meios de comunicação. É uma língua que ele deve aprender”.

Jacques Ranciére


Manhã de sol. O córrego do Lapenna exala o cheiro do extrato da cidade. Em meio aos efluentes advindos das indústrias que margeiam o Tietê, desde um pouco depois de Salesópolis, Mogi das Cruzes e, ao adentrar São Paulo, apesar da sinuosidade nem parece rio, somente na literatura e seus jogos de aliteração poética insistem em trazer à memória do narrador que se trata de um rio; pássaro Tiê, Tiê, mais Anhembi, Anhembi, água, água, numa quase melodia provoca outros sentidos e busca a afetividade e o entrelaçamento desse tecido vivo de histórias diversas e identidades.

Dentro desse espaço geográfico, Dona Antonia surge na viela que une a rua Almiro dos Reis com a Travessa Berigan. Passagem estreita, é verdade, mas como ela bem diz: “estreito também é o caminho desse mundão – cidade e a gente se espreme para poder atravessar esse mar Morto” – proclama Dona Antonia com o evangelho debaixo do braço, num desabafo misturado com oração.

Como narrador nesse espaço de ler e ouvir, vivo, nesses últimos dias, com meus parceiros dessa lida de pensar, fazer, educar e ser educado, a definição de prioridades e impactos desejados, do que julgamos ser melhor para essa gente ribeirinha por necessidade, que vive as vulnerabilidades, sem ter condições de olhar com tempo e nem com todo o aprofundamento necessário para o que vive.

Sim, estive recentemente lá pelas bandas do Pacaembu, onde ouvi os pássaros a anunciar a chuva e imaginar pacas bebendo no rio, ou melhor, no veio d’água escondido debaixo do asfalto em que passam carros e nos dias de jogos passa torcida organizada, percebo que nossas asas estão livres para voar, porém nossos vôos precisam ser mais dirigidos, mais curtos, assim temos mais tempo para partilhar e convencer outros a aprender e voar nas rotas inerentes à nossa missão de voar e fazer voar.

Um sabiá solta o seu canto. Dona Antonia me convida, agora por aqui no Lapenna, para um café. Ela tem pela gente do Galpão um grande apreço. É que Flaviane e Flávia passaram dois anos no Galpão de Cultura e Cidadania juntamente com outros 50 jovens, a contribuir para que nascesse nesse lugar um jeito de comunicação e arte que agora irradiam para tantas outras paragens tudo que foi descoberto e construído com esses jovens da localidade.

“Essas meninas já estão no meio da travessia desse mundão que é essa cidade, estudando e trabalhando e pensando nos outros, em fazer o bem, isso é tão raro se ver”, não é verdade?” – indaga Dona Antonia coando o café. “O senhor vê, essa cidade côa as gentes. Olha aqui embaixo o que passou. O pó fica todo enlameado no coador, a sobra, sobrou e a gente joga esse borrão fora” – metaforiza Dona Antonia.

Aos poucos percebo, até no silêncio que se faz para saborear o café, que muitas vezes corremos o risco de fazer leituras enviesadas sobre o lugar. Leituras que, na tentativa de definir conceitos ou até mesmo um panorama social, só conhecemos efetivamente quando vivemos a experiência de uma escuta livre sobre as relações, formas e modos de viver nessas terras ribeirinhas, ou em tantos outros lugares, onde o rio é asfalto, e o asfalto é rio, nos morros, enfim, cada qual com identidades e singularidades coletivas e individuais.

Dona Antonia diz que perdeu o marido. A casa pequena, porém organizada, na porta uma mureta – barragem que impede um desconforto maior nos dias de “chuvarada das danada, em que até Arcanjo Miguel abre o guarda-chuva”, como lembra Dona Antonia da frase da católica Dona Glória. “Todo mundo fica igual, seja crente, seja católico, com água até a cintura. Deus quase desaparece e a gente vê refletida nossa esperança, nas águas que Deus tratou de mandar” – profetiza Dona Antonia.

Indago sobre o que prejudica a vida dos jovens, o que os enfraquecem e ela responde: “não o jovem não é fraco, ele é levado. Olha, lá no rio São Francisco, quem leva o jovem ou a jovem é mãe d’água, só que de outro jeito, outra história, outros significados, apesar de que lá tem muita miséria. Aqui parece com enchente de ambição. Não podem ver essas coisas, tranqueiras de usar, vestir e divertir, que já sai querendo, sem às vezes ter necessidade.

Mas e nós Dona Antonia, os adultos?
- Nós adultos também não agimos diferente, não paramos de querer mais, fazemos tanto lixo, desperdiçamos tanto. Acho que nós criamos um cobreiro na pele do mundo, que já entrou nos órgãos da terra. Precisamos ter consciência, curar as feridas e parar de ferir. Como consumimos sem consciência!

Claro – profere Dona Antonia, 57 anos, moradora do Jardim Lapenna – que o jovem daqui sabe diferenciar e tem sabedoria para escolher, mas essa febre de ser aquilo que dizem para que todos sejam. Comer essas tranqueiras que estão na televisão, se vestir igual com esses tecidos de petróleo... Parece uma enchente que leva em suas águas a juventude, sobretudo os mais pobres, a muitas vezes afundar ou se perder nessas profundezas de tudo igual, fica sem o que a pessoa é, entra no enxame, só para dizer que ta dentro, mas nem sabe o que tá fazendo dentro.”

Entre alguns “uais”, interjeições e palavreado mineiro, Dona Antonia olha para a bíblia sorrateiramente e, após pigarrear, compondo experiência com propriedade, se refere à escola do lugar como muito distante dos jovens, como ela diz “parece que a escola está em outra vila”.

“Os jovens não estão na escola e nem na comunidade, aqui do lugar. Eu sei que eles podem estar em tantos lugares como coisas da internet, telefone sem fio e outros transporte de som e luz, conheci isso quando fiz um curso no Galpão sobre a comunicação, mas eles, os jovens, têm que estar aqui também, sabe, lutando e ajudando pelas melhorias da escola e do lugar. Afinal, tudo é uma coisa só. Uai, a casa não está na rua do bairro, junto com a escola que está aqui na Vila, e a Vila, as ruas, a casa não estão dentro da cidade, e a cidade não está dentro do estado, e daí dentro do país, da América, do mundo?... Ai que saudade de Minhas Gerais” – lembra Dona Antonia.

“Sabe quando vejo as escolas reunidas no Galpão, as crianças e os professores lendo, os jovens e os adultos cantando, tocando instrumentos, as meninas filmando, penso, olha só, ai tem um caminho. Minhas filhas trabalhando, escrevem bem, aprenderam tanta coisa, só vendo. Acho que é possível mudar, foi que você perguntou, não foi, Cometa?”

- Foi sim Dona Antonia, aprendi muito. Nossa ! preciso voltar para o Galpão. Vamos prosear mais num outro dia?

- Claro, casa de mineiro - paulista sempre ta aberta. Ah, vem ver, antes de ir embora a Eduarda, filha de Flávia, ela está linda.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O fim do Jardim Lapenna

Por Maikelly Burges

Tudo começou em um dia normal, eu arrumava a minha casa enquanto meus irmãos brincavam e minha mãe fazia o almoço. Quando inexplicavelmente o relógio parou, e percebi que tudo em minha volta tinha mudado, o sol que raiava em um lindo céu azul havia desaparecido e tudo escureceu como em um passo de mágica.

Haviam várias nuvens negras cobrindo todo o céu, as pessoas que estavam na rua começaram a se desesperar pois na televisão anunciava a todo o momento que a metade de todos os países havia parado. Foi quando percebi que o fim do mundo estava acontecendo.

Minha família e eu começamos a correr pelas ruas sem rumo, subimos a passarela e descemos novamente, tinha muitos cachorros que não paravam de latir e corriam em uma única direção, foi aí que tive uma idéia: “vamos seguir os cachorros, que eles sabem aonde vão.” Então decidimos segui-los.

Enfim chegamos à União de Vila Nova, o estranho é que naquele lugar estava tudo normal, o céu azul, as pessoas andando normalmente nas ruas, algumas curiosas com o que estava acontecendo com o mundo, então pensei “estou salva...”. Mas esqueci que o meu namorado estava ainda no Jardim Lapenna.

Imediatamente peguei meu celular e liguei pra ele e disse: “amor vem aqui na União que o Lapenna vai acabar, aqui é seguro...”. Ele respondeu: “não posso estou aqui na loja fazendo umas caixas de som, estou ocupado, não se preocupe logo isso vai acabar, é passageiro”. Foi quando, naquele momento, caíram bolas de fogo no Lapenna, acabando com tudo que existia. Me desesperei, meu namorado corria o risco de morrer e toda a minha infância e juventude também. Era o fim de tudo o que mais amava na vida...

Acordei assustada e logo olhei para o relógio, estava tudo normal, era somente um sonho... não, pesadelo!

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Conversa com Dona Ana, lá no Mutirão



“Os dias de sol dessa primavera têm um friozinho que refresca, mas ás vezes incomoda. Pela manhã, agora sozinha, pois minha mãe partiu, café preto, pãozinho de ontem e margarina, por aqui no Mutirão do Lapenna, penso na nossa vida, sabe essa vida de todo mundo, claro a partir das “minhas vistas”, essa vida comum a todos, com nossas crenças, atitudes e muitas vezes tenho a sensação sobre esse lugar, esse bairro, assim distante de tudo, outras vezes tão perto.



Quando caminho até o Galpão encontro as pessoas, o Padre, o pessoal todo, esses moradores, falando sobre nossos problemas, pensando em como resolvê-los, mas apesar de tudo é muito pouco, podemos fazer mais. Muitas vezes me pergunto se hoje, agora, não seria o momento de todo mundo nesse mundo, não reconsiderar esse ‘sempre foi assim mesmo’.



Aqui na quitanda, quando o senhor passa por aqui, a gente conversa sobre a vida, a história. Tenho tanta história, minha memória está boa, apesar dos sessenta. Guardo os 'causos' da minha mãe, preta velha, baiana, que sacudiu a poeira, eta baiana brasileira! Não só Jacobina se orgulha dela, mas quem a conheceu aqui no Lapenna sabe que a velha era arretada.



Cuscus repartido com a vizinhança, sempre nas terças – feiras ela, minha mãe, despedia-se dos passageiros do ônibus, aqui mesmo no fim da rua da Mutirão, tanta gente que ia e vinha de Jacobina. Nossa, o senhor desculpa, ta vendo tô chorando, saudade da preta, essa ‘muié’ que me criou. Ela benzia quebranto das crianças. Cosme e Damião e tantos outros santos de uma Bahia que parece também com ‘Sumpaulo’.



Mas a hora passa e o tempo cheio de hora, uma, duas, passa o tempo e como passa. E eu me vejo aqui com o senhor conversando nesse final de tarde quase noite, nesse lugar que a gente ouve bem o barulho do trem e a saudade silenciosa para fora, dentro da gente faz um barulhão.



Quando se chega num lugar para morar, vinda de outro onde se nasceu, primeiro dá raiva e eu confesso pro senhor, tive raiva quando cheguei por aqui. Era menina. Depois fui brincando, vi que o tempo é outro tempo nesse lugar: várzea, rio, lagoas, vegetação, beira – rio, claro era eu e minha mãe. Não, não invadimos, era um pedaço de terra que encontramos, hoje compreendo um pouco os que invadem, até olho e ajudo aqueles que estão dentro da água e rezo para Nosso Senhor do Bomfim e São José, minha mãe era devota, que ajudem o nosso movimento para melhorar as nossas condições de vida.



Ah, já falei uma vez pro senhor, esse jornal que o senhor faz com as juventudes das escolas e do bairro, junto com os adultos, pode ajudar muito a melhorar as condições de vida, pois esclarece. Tem também aquele outro jornal que o Padre Ticão distribui. Sabe que dá vontade de ver essas conversas da gente nesses jornais. Claro e os jornais têm também que explicar explicadinho como funciona a cidade que a gente está dentro, apoiar e divulgar o que se precisa e o que se conquista.



Sabe vejo muita televisão, na verdade muitas vezes somente para criticar. Falta orientação das coisas na ‘telinha’ e também compreender as coisas, até mesmo o fato de estarmos todos aqui nesse lugar.



Vige, Sr. Cometa, deixei o cupim no fogo, deixa eu desligar, se não vai queimar. O senhor me espera ai um pouco, enquanto arrumo a mesa para gente saborear essa comida do jeito que minha mãe fazia, quando eu chegava do estudar. Viche, pena que sai da escola cedo, mas continuei a desenvolver, como dizia minha mãe preta, a sabedoria popular. Consigo entender a relação das coisas. Como ouvi outro dia a gente tem que se emancipar, cada um e todo mundo, tenho consciência do que pode a inteligência.



Ah, se fosse outros tempos, convidaria o senhor para amanhã, pela manhã, já que é sábado, cantar e conversar na beira do rio, junto com as crianças, soube que o senhor gosta de música, é verdade?”



- Oh, Dona Ana, aceito o convite imaginário, mas podemos cantar lá no Galpão, pois a gente junto, a senhora sabe, canta muito melhor.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Feliz ao lado deles

Por Vitória Loiola, frequentadora do Ponto de Leitura Jardim Lapenna

Eu nasci em São Paulo SP, mas minha mãe me levou para Salvador. Eu morava em uma casa de frente para o mar e era muito bom, mas meu pai não morava comigo. Morava com o pai dele, no Ipiranga. Meu pai ficou pouco tempo comigo, ele veio morar com a minha mãe, quando eu tinha 7 anos, e agora tenho 10 anos. Quando eu tinha 4 anos, fui morar com a minha tia. Um dia uma mulher veio me pegar, para morar com ela, mas a minha mãe não deixou, disse que sou o presente dela, por isso ela colocou o meu nome de Vitória. Dentro da minha casa tenho o meu pai e a minha mãe os dois ao mesmo tempo.

domingo, 16 de outubro de 2011


Recado de uma Poranguense
Margarida Lemos

Tem coisas que só mulher dá jeito,
está provado pelos fatos da história,
passando até pelo estado de direito,
só não vê quem não tem memória.

Veja o caso da premiação do Nobel da Paz,
foi para uma iemenita e mais duas liberianas,
não foi para homem e nem tão pouco rapaz,
valeu a luta de uma árabe e duas africanas.

Por aqui em outro continente veja a confusão,
eu nasci foi em Poranga entre Piauí e Ceará,
este último cedeu Freguesia de Amarração,
para ficar com a região de Príncipe “Imperiá”,

mas um engenheiro em 1818 fez outro mapa
causando uma verdadeira geografia da indefinição,
fez com que os dois estados quase saem no tapa,
por uma faixa de terra o que castiga a população.

Pois esse litígio da época do primeiro e segundo Imperador,
fez com que nenhum dos estados invista na região,
virou terra sem lei, sem água, polícia, estradas e educador,
nós vivemos aperreados pela total desconsideração.

Se a maioria dos políticos é do sexo masculino,
e o impasse continua prejudicando a população,
melhor seria ter mais representação feminina
até para resolver outros problemas da nação.

Iemenita, liberianas, cearenses e piauienses,
mulheres de tantos continentes e do meu sertão,
gente de Buriti e conterrâneas poranguenses,
podemos mostrar que é possível a transformação,

atenção gente da minha terra fique de olho aberto
e na próxima eleição, seja qual for o lugar, Piauí ou no Ceará,
considere esse gênero que está sempre por perto
esse feminino que deseja o seu espaço para assim poder mostrar,
toda a sua potência e inteligência nessa história de legislar e governar.

Meu nome é Margarida Lemos, sou professora da Rede Estadual do Ceará.
nasci foi em Poranga e estive recentemente em São Paulo para visitar uns parentes
lá na Vila Curuçá, e espero contribuir com esse Ponto de Histórias de gentes
que vivem tantas experiências nesse mundão que é o nosso pais.

sábado, 8 de outubro de 2011


Diário de Educador
Antonio Siqueira Mattos
Prof. de História
E.E BAIRRO PEQUENO CORAÇÃO
Itaquaquecetuba - SP

Individuo, sujeito e a nação corinthiana



A nação corinthiana foi identificada como tal pelos jovens naquela tarde, pois segundo eles, os sujeitos que a compõem, entoam os mesmo cantos, vestem as mesmas cores e, além disso, tem os mesmos sentimentos e sentidos comuns, caracterizados por expressões que valorizam e até afirmam, na peleja futebolística, a disposição da luta e a exibição da força, seja ela física ou afetiva.



Pouco importa para a maioria a história e a continuidade cultural dessa nação e de tantas outras, nascidas na lógica da indústria e dos aparelhos especializados, internacionalizando os mundos simbólicos a partir da publicidade e do consumo, a segmentar o povo, ou melhor, a multidão em públicos construídos pelo mercado.



Ao mesmo tempo existe uma predominância do vazio cultural e, a desimportância territorial, faz da cultura nacional – local, diante da cultura planetária, provinciana e carregada de laços paternalistas. Mas uma comunicação entre as gerações, no que diz respeito à memória longa dos povos, resiste dentro dos equívocos e inequívocos sentimentos da nação, ao projeto de universalização.



Percebemos nos jovens naquela tarde que a nação identificada por eles, traz em sua organização enérgica de afirmação e fronteirização a potência do mercado a imprimir marcas e produtos na identidade estabelecida pelos patriotas – cidadãos – consumidores, o que faz surgir sub – identidades.



Qualidade e preço das camisetas desenham a diferença de classe social que compõe a nação corinthiana, sendo que os ídolos dessa pátria estampam e difundem mercadorias na redefinição do que se entende como esporte, atleta e se instaura uma economia de mercado constituída por fluídos midiáticos, investimentos, na perpetuação da espetacularização do esporte.



No "mercandejar" pelos mares da razão e do sentimento de fazer parte de comunidades em que o sentir tem lastro e, organicamente é invadido, pelas falações e edições muitas vezes inconseqüentes, para uma audiência sedenta por vitórias, tudo em meio à dinâmica de uma sociedade debilitada, vamos torcendo e vivendo por aqui que o mestre mercado mandar.



O gol, por exemplo, não é conseqüência de um esporte, é um investimento, envolvendo desejos, necessidades e vontades, que ultrapassam a realidade e nos leva, enquanto torcedores dessa nação, ao delírio de adquirir aquilo que se identifica com a nossa paixão.



Depois do apito final, talvez possamos perceber a posição irregular em que nos encontramos, porém a regra ainda não é clara, ela garante o lucro a partir do nosso envolvimento de se vestir com a imagem e a forma oferecidas, as quais não necessariamente seriam as melhores, ou as que mais se identificam com o que somos e pensamos, pois não fazemos parte da elaboração das coisas, mas coisificados vivemos.



Gosto do Corinthians e meus alunos, a maioria, também e agradeço, desde já, a publicação desse texto.

domingo, 25 de setembro de 2011


A geografia lamenta e a floresta chora

Islair Rosa Catanheira
Educador EJA - Belém – PA

Já passei muitos apuros
desde o norte até o sul ,
exploração eu desconjuro
do seringueiro ao artesão.



Passando pela metalurgia,
peão de obra e construção,
sei que a ciência geografia
ajuda a entender esse mundão.

Equilíbrio, ecológico, poluição e erosão,
estudei a tal ciência e os equinócios no sertão,
via láctea onde estamos, planeta, terra e nação,
movimentos e conseqüências, translação e rotação.

Com a sabedoria de outrora
mais a ciência meu irmão,
sei calcular o tempo e a hora,
plantar na melhor posição,

quantidade e intensidade,
luz solar bate no chão,
calculo os fusos com facilidade
resolvo a mais difícil equação,

só não entendi uma coisa
foi uma tal de aprovação,
de um código da floresta
meteram os pés pelas mãos.

No caso de nossa terra
tem manganês e até plantas medicinais,
além de essências para química fina,
e tantas outras riquezas e potenciais.

Parece que o parlamento
ao redigir e aprovar o código florestal,
queria receber o nosso lamento,
a tirar o bem do texto e inserir todo mal,
esse mau desenvolvimento, modelo que desconsidera
a vida futura e o presente desse chão.

Na Câmara dos Deputados tentaram ainda interceder,
mas interesses escusos foram considerados
e o senado fez o desatino vencer.

Desatino parecido com toda luta amazônica,
cruelmente sonorizada por motos – serra sem perdão,
além do sofrimento do serrado na descriteriosa plantação,
considera-se o lucro imediato em detrimento da razão,
pois além do afetivo é cientifica a constatação,
que hoje impera o que é insutentável
na lida com as florestas e também na urbanização.

Seja campo, mata e cidade
isso aprendi na geografia social,
para se ter prosperidade
é necessário um Código Florestal
diferente do aprovado, mutilado e reduzido
a um tratado de interesses da economia de mercado,
faltou pensar e considerar no que é sustentável e essencial.

Autoria da imagem: José Pedro Costa

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Tijolos, canos e brincadeiras:
uma receita de infância feliz


Por Célia Araújo, professora de Educação Física na EMEF Antonio Carlos de Andrada e Silva

A minha infância foi uma infância de moleque. Eu morava numa região nova aqui de São Miguel, não tinha infra-estrutura nenhuma e os nossos brinquedos eram restos de construção, tubos de esgoto, pedaços de asfalto, pedaços de madeira, um pouco de árvores frutíferas que a gente tinha para subir e dependurar, o córrego de São Miguel, que era um fio de água, na verdade... Ele ainda tinha peixe e meu irmão não saía de dentro da água do rio, e eu ia pra lá pra ficar olhando ele dentro da água.

Nossas brincadeiras eram pular vala, subir em muro, roubar as ameixas do vizinho e sair correndo. Aí quando começaram as obras de infra-estrutura no bairro, que era água, esgoto, luz, lembro que já tinha uma idade avançada para a época, uns 12 anos, a gente ficava até uma hora da manhã na rua quando era muito calor porque não aguentava ficar dentro de casa. E a gente, só com as luzes das casas, brincava de esconde-esconde e era uma delícia brincar no escuro porque ninguém achava ninguém.

Eram mais de 25 crianças, as mães ficavam no portão e a gente brincando, meninos misturados com meninas, de todas as idades, tinha de 06 até 14 anos, e eu era uma das mais velhas. Eu brincava muito na rua, muito.

Tinha uma brincadeira, eu não lembro o nome, mas eu gostava muito, porque como eu sou muito grandona eu abusava. Tinha que carregar uma pessoa nas costas e cada um tinha um pedaço de pedra. Você jogava a pedra e aí a outra pessoa jogava um pedaço de pedra pra bater naquela primeira e ir o mais longe possível. E a pessoa tinha que te carregar nas costas até o lugar da sua pedra. E eu me divertia com aquilo porque eu tinha as pernas compridas e ninguém conseguia me levantar. Então eu ficava em cima das costas das pessoas meio que patinando, batendo os pés no chão.

E éramos todos muito magros, naquela época não tinha criança obesa, eram crianças muito magras. Era muito gostoso brincar disso. Isso à noite, quando estava muito calor. De dia a gente brincava nos tubos de esgoto, aquelas pilhas enormes, e ali era de casinha até prédio, eu nunca tinha visto um prédio na minha vida.

Eu lembro das construções. Uma vez eu fiz uma casinha, na época do desenho dos Flinstones, na cidade da pedra, e eu fiz uma casinha inteira, eu lembro dela. Fiz todos os cômodos, com todos os detalhes com resto de construção, tijolo, fiz mesa, máquina de costura, eu fazia xícaras... eu ralava a pedra até ficar o formato da xícara, e colocava os pires e recebia as pessoas. Tinha cama, sofá, era um terreno grande que tinha do lado da minha casa, e ninguém podia entrar lá.

A minha família foi muito unida nessa época. Depois começa a escola e aí cada um vai para um lado, e formam as famílias, depois vão embora. E o bairro também já não é o mesmo. Hoje não tem mais o córrego, nem a rua, nem os vizinhos, não tem mais ninguém lá morando.

E nós, crianças daquela época, a gente lidava com a vida e com a morte de uma maneira muito presente. A gente brincava, se machucava e ficava todo mundo em volta, olhando. Eu lembro quando a minha avó faleceu e a gente recebeu a notícia. Era uma senhora muito doente e que contava muita história para a gente. Eu gostava das histórias que ele contava e a gente fazia companhia para ela, ela sentia muita dor.
Então ficava aquele monte de crianças em volta dela e ela contando histórias para a gente, depois a gente traduzia essas histórias lá fora. E quando ela faleceu, lembro que todas as crianças participaram. Nós saímos de casa em casa pedindo flores de jardim pra colocar no caixão, não tinha floricultura na época, e eu me lembro das dálias que eu pegava...

Toda a vez que eu vejo uma dália eu lembro da minha avó, não lembro muito da imagem do rosto dela, mas lembro daquele movimento de crianças, das histórias que sempre tinham uma moral.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Será que tem casamento?

Ademir e Dalci Friggi vão fazer 25 anos de casados em dezembro, mas antes do casamento aconteceram vários percalços, e um deles a Dalci nos contou:

Nós já estávamos noivos, de casamento agendado. Ele tinha uma casa no Paraná e nessa época só morava a mãe dele e o irmão, o outro irmão já morava aqui em São Paulo. E a mãe dele estava totalmente desassistida lá. Então eu falei para o Ademir : “bem, você é o homem, é mais velho, vai lá e traz a sua mãe perto de você.”

Para isso, ele tinha que vender a casa, que era herança dele e da mãe, para comprar a nossa e uma para ela aqui em São Paulo. Dias antes da viagem a gente discutiu.

(E na hora de contar essa história para o NCC também. Acompanhe a conversa:
Ademir: - Não, não foi nem discussão, foi brincadeira, e você jogou o cinzeiro em mim.
Dalci: - Não foi brincadeira, você falou um palavrão pra mim.
Ademir: - Mas e daí? Falei um palavrão pra ela e ela tacou o cinzeiro em mim. Aí eu abaixei.
Dalci: - Você não abaixou. Você levantou o joelho.
Mas, enfim, já passou. É melhor voltarmos a história...)

Ele estava na minha casa. Tem um cinzeiro que possui uma base e ele é colado na base de madeira. Eu peguei e joguei o cinzeiro nele, ele levantou a perna, então na hora que bateu na perna dele, a base de apoio bateu no olho (no supercílio) dele e feriu. Cortou. Ele ficou muito “macho”.

Por ele, assim, não tinha problema nenhum. Mas o Ademir vive tirando um barato de todo mundo, então o que aconteceu? Os outros primos começaram a tirar barato da cara dele. Todos.

(Ademir na conversa de novo:
- Não foi isso não, engano de vocês. Se o cara é mole vão tirar sarro da cara dele e ele não vai ligar. Mas não é assim, eu já tinha tomado a decisão antes de qualquer coisa, falei, pronto: não caso mais.)

Ele foi viajar, mas nós estávamos brigados. Não sabíamos se íamos casar, embora a gente já houvesse dado o nome na igreja e tudo. Só que quando chegou lá no Paraná, tinha um comprador interessado no imóvel. Ele vendeu a casa e veio embora.

No percurso ele teve uma apendicite. Na ida ele já foi passando mal, mas na volta ele teve uma apendicite supurada. Então ele começou a passar mal, veio passando mal e parou onde? Na minha casa.

Peguei-o e fui levar para o hospital Tide Setubal. Chegando lá o médico foi examinar... aperta, aperta, aperta... e a gente brigado.

Como ele tinha ficado no chão, no corredor, decidi tirar ele de lá. O médico falou assim pra mim:
“dei essa medicação para ele e ela dura só 4 horas. Você vai ter que levá-lo para um hospital”. Trouxe-o para casa e como a dor passou, ele não quis ir mais. Mas quando passou o efeito da medicação... a roupa grudava, pingava suor.

Eram mais ou menos umas onze horas da noite, onze e meia, e novamente eu, ele, minha cunhada e meu irmão fomos para o hospital Tide Setubal. Chegamos lá e o médico falou assim:
– Vai ter que operar. – só que não tinha vaga – Eu vou ligar pra um amigo meu lá no Ipiranga. Mas ele tem que ser operado hoje.

Marcou a cirurgia e o hospital lá no Ipiranga me esperando, e a gente esperando a ambulância porque não tinha ambulância. Daí eu falei para o médico:
– Posso levar ele de fusca?
Na época meu irmão tinha um fusca. Daí o médico falou:
– Não é muito aconselhado não, mas é a opção que tem, eu vou autorizar.

Eu assinei a autorização e fomos para o hospital para internar. Ele chegou e já foi pra cirurgia. Ficamos esperando e saímos do hospital quase três horas da manhã. Só que ele pegou uma infecção hospitalar. Ele ficou 22 dias no isolamento, os médicos iam lá e eu também ia todos os dias, e ele não falava como estava se sentindo. Cada dia piorando e não falava. Naquela época os residentes que faziam a visita dele não viram que ele estava piorando.

Teve um dia que eu estava no serviço e eu falei para minha amiga:
– Eu vou paro hospital, o Ademir não está bem.
E ela disse:
– Mas ninguém ligou.
– Mas o Ademir não está bem.

Nesse dia ele passou mal, a enfermeira entrou no quarto dele e falou que ele não passava daquela noite. A sorte foi que o chefe do centro cirúrgico estava lá. Ele operou o Ademir no quarto mesmo. Antes perguntou:
– Você é homem?
Ademir disse:
– Eu sou. – com voz esganiçada.
– Então toma esse travesseiro porque você vai sentir muita dor e não tem como dar anestesia. Vai ser a sangue frio.

Quando eu cheguei ao hospital ele não estava no quarto. Tinha um senhor que estava no quarto dele, também tinha feito uma cirurgia. Eu perguntei para ele do Ademir e ele me falou para perguntar para a chefe da enfermagem. Pensei: “puts e agora? Pergunto ou não pergunto? A cama vazia... ai meu Deus!”
Fui lá na enfermagem e ela me falou:
– Ele teve que voltar para o centro cirúrgico, teve que fazer outra cirurgia e agora está no isolamento.

Para entrar no isolamento tem que estar com os “amparos todo”. Com aquelas roupas preparadas e não entra qualquer pessoa. Então o médico perguntou o que eu era dele.
– Olha moço, até antes de ele ser internado eu era noiva, agora não sei mais não.
E nesse meio tempo a igreja me ligando que precisava da confirmação da data. E eu falava assim pro moço:
– Você dá um tempo. Porque eu não posso chegar pro moço que tá lá numa cama do leito e falar, escuta você vai casar comigo ou não vai? É muita covardia. Eu não posso influenciá-lo para essa decisão. Ele tem que tomar essa decisão mais tranqüilo, mais seguro.

Quando eu o tirei do hospital ele estava 22 dias internado e com dreno porque tinha que fechar de dentro pra fora. Só que ele não comia, não queria mais comer. Então eu assinei um termo para cuidar dele em casa. Trouxe e cuidava dele. Tive que cuidar do buraco aberto que nunca imaginei saber limpar lá por dentro.

Foi nesse momento em que ele ficou quase a beira da morte que ele refletiu qual era a minha importância na vida dele. Quando eu cheguei, ele me falou que tinha passado por momentos muito difíceis, e que todos os momentos que ele se viu ali eu sempre estava ao lado dele. Ele tinha certeza que não viveria sem mim, que eu era a mulher da vida dele e se eu ainda quisesse a gente casava, ia dar continuidade aos planos que a gente tinha.

Três meses depois nos casamos na igreja escolhida, na data marcada. Hoje estamos prestes a completar 25 anos de casados e somos pais de dois filhos.

NCC São Miguel no Ar

Galpão de Cultura e Cidadania
Rua Serra da Juruoca, nº112
Jardim Lapenna - São Miguel Paulista
São Paulo - SP
Telefone: (11) 2956 0091
E-mail NCC: projetosmnoar@gmail.com

Fundação Tide Setubal

Rua Jerônimo da Veiga, 164 - 13° andar CEP 04536-000 Itaim Bibi - São Paulo - SP Telefax: (11) 3168 3655
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São Paulo - SP
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